Uma história de patas e patos

[roubado dos comentários do Fábulas]


 


Era uma vez uma pato.

Ou melhor, uma pata. Uma pata grande e poderosa.

No grande reino da Patolândia, a população era constituida por muitas espécies de patos, todas elas vivendo em amena convivência, nadando nos mesmos lagos, alimentando-se pacificamente dos amplos recursos com que a natureza bafejara o reino.


No norte, viviam os patos marrecas, também conhecidos por trocarem muito os “vês” pelos “bês”, muito faladores, activos e sempre propensos a contar anedotas sobre os patos do sul, os patos mudos, que apesar do nome, até falavam bastante. Arrastavam um bocado a fala e colocavam muitos “ei” e “tão” no final das conversas, mas fora isso eram tão patos como os outros, os do norte. A vida decorria feliz na Patolândia.


Os patinhos, acabadinhos de sair dos ovinhos, eram levados pelas mães até aos charcos mais tranquilos, onde ficavam à responsabilidade dos mestres-patos, que tinham a incumbência de os ensinar nas artes de grasnar, nadar, voar e todas as outras coisas típicas da raça.

Quando crescessem o suficiente, rumariam a outros charcos, aprenderiam a grasnar coisas diferentes , a procurar o seu próprio sustento e, quem sabe, até a pôr ovos, constituir família.

A pata grande e poderosa era a responsável por todos os mestres-patos e tinha a delicada missão de supervisionar todos os pequenos charcos onde os patinhos aprendiam os pequenos “Quac”.


Mas a pata grande e poderosa não estava sózinha.

O governo da Patolândia estava nas mãos de um outro pato, também grande e poderoso, um pato-real vistoso que, na prática grasnava mais alto que o rei dos patos, já velho e a perder as penas.


No entanto, a paz estava a desaparecer no grande charco.

A pata grande e poderosa andava de penas trocadas com os mestres-patos e as águas do charco ficavam, de dia para dia, cada vez mais revoltas.

A confusão era grande.

Por decreto real, os mestres-patos passavam a ser obrigados a comunicar à grande pata de cada vez que não conseguissem ensinar um patinho a nadar, a voar ou a grasnar, mesmo que o patinho tivesse nascido mudo, sem asas ou sem patas.

Os mestres-patos passavam também a ser obrigados a ensinar os patinhos enquanto vivessem, mesmo quando já não conseguissem voar para acompanhar os seus pupilos.

E, finalmente, os mestres-patos que quisessem sair do charco secundário e saltar para o charco principal tinham que desafiar os outros mestres-patos do lago, numa competição onde se teriam que debicar furiosamente - quem conseguisse arrancar mais penas aos adversários, ganhava o direito de nadar no charco principal.



Por tudo isto, facilmente se compreenderá que a grande pata não era muito popular entre os mestres-patos.

O pato-real, que segurava nas penas os destinos do reino, também já fora mais popular.

Ultimamente, só se ouvia grasnar nos cantos do charco histórias sobre o grande pato, boatos de sementes retiradas do celeiro e enterradas sabe-se lá onde, uns amigos quaisquer do grande pato que agora só nadavam nas melhores zonas do charco, corria até uma história de que o grande pato nem aprendera a voar, mas mesmo assim tinha uma anilha dourada na pata como se tivesse ... enfim, uma grande confusão, pois claro.

Os patinhos também não estavam muito contentes.

Não por simpatia com a causa dos mestres-patos ou coisa parecida, mas porque sentiam que a grande pata não tinha o direito de os obrigar a estar tanto tempo no charco, sem tempo para umas fugas, umas brincadeiras, uns voos à sucapa, enfim, essas aventuras típicas de patinhos adolescentes, vocês sabem como é.

Portanto, o que tinha que acontecer... aconteceu.



Um belo dia, os mestres-patos revoltaram-se em conjunto e vai daí, nadaram todos em direcção ao grande charco, grasnando ruidosamente.

Pelo caminho, abanavam frenéticamente as asas, grasnando palavras de ordem e enchendo os ares de penas.

Num repente, invadiram os aposentos da grande pata, afugentando-a para o exterior.

A revolução saira ao charco.

A grande pata ainda tentou negociar – dois grãos de milho extra na ração – mas já era demasiado tarde.

O grande pato-real, vistoso como sempre, assitiu impassível enquanto a grande pata era depenada e colocada num grande caldeirão, onde já ferviam a água e os temperos.

Um dos revoltosos despejou então para dentro do caldeirão uma grande quantidade de bagos de arroz, duas pitadas de sal e umas folhas de louro. Depois, revezaram-se e foram mexendo, mexendo, mexendo...

Finalmente, o manjar ficou pronto.

O grande pato-real, ainda vistoso e sempre cheio de recursos, sentou-se à mesa e serviu-se.

Aquele arroz de pato estava delicioso, excelente mesmo.

Ergueu o copo e propôs um brinde.

- Meus caros mestres-patos, não encontro palavras para vos retribuir a felicidade de estar aqui convosco, nesta confraternização.

Sabem que sempre estive e sempre estarei do vosso lado.

E para que vejam que eu compreendo que tudo isto não passou de um lamentável mal entendido, vou providenciar agora mesmo que todos vós passeis a receber mais três grãos – reparem, três grãos de milho - na vossa mais que justa ração...

Os convidados ergueram os copos.

- Ao charco – grasnaram todos.



O grande pato-real inchou ainda mais as suas penas.

- São mesmo patos... – pensou para consigo mesmo.

Sorriu e ergueu o seu copo.

- Ao charco, gritou. Ao charco...

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